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Uma mulher, para ser boa Mãe, precisa proteger o seu indivíduo

Uma mulher, para ser boa Mãe,
precisa proteger o seu indivíduo

 

Nesse mundo de hoje, o maior tabu ainda é a maternidade. Não tem assunto mais sério, mais grave e perigoso do que a maternidade. As pessoas, elas acham que é esse romance, essa sabedoria, essa bondade. E ter filhos é uma coisa difícil demais. É um exercício constante e que requer, principalmente, extrema honestidade. Acho que, em geral, as pessoas não estão a fim de entrar em contato com as suas fragilidades de maneira honesta. Elas não estão querendo entrar em contato consigo mesmas no papel de mãe. Acho que o discurso comum que afirma de maneira viciada: “Ah, é ótima mãe!” é perigosíssimo. Estou o tempo inteiro questionando o meu “eu-materno”. E, para tal, e para sobreviver ao grande perigo de me tornar uma mãe ineficiente, umas das coisas que mais defendo é a minha felicidade. E felicidade, para alguém como eu, que não é esfuziante ou eufórica, significa definir quem eu sou, o meu indivíduo. Uma mulher, para ser boa mãe, ela precisa, fortemente, proteger o seu indivíduo. De todas, essa é a questão mais cruel. E o homem não sabe o que é isso. É uma cicatriz que não volta. É uma felicidade que vem com uma amputação. É a inversão da vida que vem com o tempo, ainda mais quando se tem filha mulher. Vem o tempo, a decadência com a primavera do outro. É o canto do cisne. É bonito, mitológico, mas pode ser doloroso. A maternidade é um exercício constante e deve ser observado o tempo inteiro. Você pode ser uma grande mãe de criança e uma péssima mãe durante a adolescência, por exemplo. Por motivos vários, mas, principalmente, porque você não entrou em contato com o disgusting, ou tudo aquilo que não foi visto, percebido, falado. A começar com a mutilação do corpo. A gravidez é uma coisa indigesta. Mas posso afirmar que fui uma grávida felicíssima. Vocês estão diante de uma pessoa que realmente foi feliz grávida. Engordei 30kg, estourei o corpo inteiro – eu que nunca tinha tido uma estria, uma celulite. Aí, com certeza eu digo, depois de toda essa devastação, fiquei mais bonita. Mas isso eu acredito que seja por causa da minha decisão de visitar, dentro daquele proces- so, todo o meu “morrer” e o meu “renascer”, pelos quais estava PÓS-F. 85 passando durante o processo de gestação. Porque, na hora que tive filho, eu morri. Eu já me arrependi de muitas coisas na minha vida, inclusive da maternidade. Esse arrependimento não significa desamor. Não significa que vou ser uma péssima mãe, que vou abandonar os meus filhos com a babá. O arrepender-se é parte da sanidade e até mesmo do exercício amoroso. É o momento em que você consegue elaborar que houve uma amputação. Já falei isso para pessoas que ficaram estarrecidas: “Como assim?”, “O quê?”. Eu me arrependi desde o primeiro momento, mas amei tão mais do que o arrependimento que decidi continuar tendo filhos. Então o arrependimento não se trata da exclusão da decisão. É apenas pensar assim: Bom, e se eu não tivesse tido? Tudo que se conquista vem com uma grande dose de decepção. Você nunca consegue nada sem frustração. Imagine filhos, que é, efetivamente, a única coisa de que você não pode se desvencilhar? É algo paradoxal, mas que convive em unidade. Eu posso, hoje, na hora do almoço, não estar aguentando aquilo e pensar “puta que pariu”, e logo depois pode vir um sorriso, uma história. Mesmo para mim, que sou uma pessoa que tem uma existência complicada e que, individualmente, solitariamente, sou uma pessoa que estou em conflito, boa parte da exclusão desse conflito e da perseverança em continuar se dá porque tenho essa responsabilidade belíssima que é fazer essas pessoas ficarem firmes, fortes e ver o processo de crescimento delas. E isso diz respeito à minha necessidade de crescer com esse exercício e de me fortalecer vendo essa potência que existe em mim de poder fazer algo efetivamente por alguém e esse alguém, esses filhos, frutificar. Isso me serve, isso está a serviço de minha necessidade. Não sou mártir. Eu preciso. Talvez eu tenha quatro filhos para ter essa obrigação absoluta para com eles, e não me perder nessas reflexões que só, muitas vezes, me conduzem a crer que é tudo uma grande porcaria. Porque é. É. Lamento. Os homens podem lidar muito melhor com o arrependimento da paternidade do que as mulheres. Porque eles se ausentam com muito mais facilidade. Ou estão presentes e, ao mesmo tempo, PÓS-F. 86 ausentes com muito mais facilidade. Quantas e quantas famílias têm mulheres como “chefes” de família porque os homens foram embora? Quando eu digo que a tecnologia humana é mal-acabada, reconheço que o homem e a mulher têm ônus e bônus nas suas condições. Basta ver o mundo e reconhecer que ele é ruim em sua totalidade. A gente sobrevive porque tem a noção do coletivo, do familiar, do outro. Os sentimentos, eles são educáveis. O amor é um sentimento que se educa. A compaixão é um sentimento que se educa. Agora a natureza, na sua pulsão bárbara, ela é simplesmente competitiva e desagradável. Então o fato é: o homem tem, em sua natureza, uma capacidade incrível de não encarar o problema. Nada mais indigesto para o homem do que uma mulher com problema. Uma mulher que tem um filho doente, por exemplo, quantos são os pais que conseguem conviver com isso? Que conseguem permanecer ao lado de uma mulher quando uma criança adoece? Essa é a natureza da fuga masculina. A mulher é muito mais resistente à dor. Não passei por isso porque esperei sete anos para ter um filho do Alexandre porque o observei muito bem. Muito bem. Essa é a questão, por exemplo, com engravidar. É um negócio que é da responsabilidade dos dois; mas muito mais da mulher. Por outro lado também, quando a gente quer engravidar, a gente engravida e fodam-se eles, né? O homem não tem o menor domínio sobre isso. A não ser que use camisinha, ou faça uma vasectomia, o homem está sob o domínio da fertilidade, está submetido a ela. E nós sabemos usar isso muito bem. Por isso que o direito ao aborto é fundamental: ninguém pode decidir o resultado de uma gravidez indesejada, a não ser a própria mulher. Mas isso não a isenta da responsabilidade sobre a gravidez e a decisão de interrompê-la. Um homem que não programou uma gravidez tem a sua parcela de culpa, e muitas vezes a paga tendo que se casar, o chamado “golpe de bucho”. A falta de uma decisão pensada, debatida, de ter ou não ter um filho, é uma constante na formação das famílias. Muitas vezes, a “gravidez acidental”, por mais que seja disfarça- PÓS-F. 87 da, está fadada a resultar numa trama malsucedida. Mas esse é um dos assuntos que são sofisticados demais para um país com bases éticas decrépitas. Controle de natalidade. Um homem no Brasil só pode recorrer à vasectomia pelo serviço público, caso tenha mais de dois filhos e após os 30 anos. Em países civilizados, homem e mulher podem ser esterilizados depois da maioridade, mesmo sem filhos. Uma nação “religiosa” nem sequer faz a campanha de prevenção da gravidez. Somos um país de crianças abandonadas, descritas, após uma certa idade, em que já não são atraentes para a adoção, como “crianças de ninguém”. Quando engravidei das gêmeas, foi realmente muito confuso, porque foi uma decisão abrupta, porque ser mãe era uma coisa que eu nunca quis, e, de repente, eu quis. Então eu estava com uma fome muito grande de ser mãe, e foi tudo muito rápido. Eu tive um “não” muito grande dentro de mim, a vida inteira, e, de repente, quando elas nasceram, aquela era uma novidade tão grande para mim, que, no surto, tentei ser igual. Foi a única vez, na minha vida, que tentei me adequar. E foi horrível. Tentei realmente fazer tudo direitinho, não do direitinho normal – isso eu sempre faço, sou superdisciplinada, me alimento bem, faço exercícios, vou a médicos –, era um direitinho do medíocre absoluto. Eu achava que tinha que ir para o parquinho e estender o paninho todos os dias. E, no fim de semana, eu tinha que ir ao clube. E ir a todas as festinhas. Mas desde quando o clube fez parte da minha vida? Comecei a fazer coisas estranhíssimas, que nunca tinha feito antes, e que não são imprescindíveis para a sobrevivência da criança. Mas eu achava que era o lindo. O lindo absoluto. Dois anos indo ao parquinho, dois anos sem beber, sem trepar... não sei onde eu estava com a cabeça. Talvez na mediocridade. Dizem que a mediocridade é a atuação do ser. Não é o ser em si. É quando você se descola; é Brecht, você atuando em cima do personagem. E cismei que era assim que deveria ser mãe. Foi um momento em que percebi que estava, realmente, muito deprimida. Fui a um médico na época que disse: “Você precisa trepar de qualquer maneira.” E eu dizia: “Eu não quero.” E eu não queria. E aquilo não estava me ferindo nem estava amargurada. Foi simplesmente a total exclusão da ideia. Engraçado é que, nesse mesmo período, escrevi um livro extremamente erótico, O efeito Urano, e me era de um indigesto absoluto pensar em fazer sexo. Talvez porque eu estava me sentindo, finalmente, acompanhada, acredito. Porque ninguém nunca está sozinho com duas gêmeas. Estava me sentindo uma rainha. Tive uma autoestima que nunca tive. E o amor foi se dando no convívio. Ao mesmo tempo, eu já não era mais ninguém. E daí veio a necessidade de ter mais filho, justamente para exercitar melhor a maternidade, sem a ignorância dessa primeira experiência. Mas, como as coisas comigo sempre são muito peculiares, não consegui engravidar de novo. Então decidimos por uma gestação de outra ordem, que é a adoção, que também é muito mágica e muito interessante. É uma gestação que você não sabe quanto tempo vai durar e é uma gestação que não é mais só sua, ela é da casa. Você não é mais detentora dessa nave-mãe. Eu queria ter engravidado de novo, mas, infelizmente, não consegui. Queria ter de novo essa experiência de “estar acompanhada”.

 

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