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Mulheres e a ameaça de retrocesso

Mulheres e a ameaça de retrocesso

No romance homônimo de Virgínia Woolf, o personagem Orlando tinha tudo que um homem poderia querer de sua época: título de nobreza, vasto patrimônio, carreira bem sucedida… até que um dia, acordou num corpo de mulher. Pensou: “mesma pessoa, outro gênero.”   Ledo engano.

 

Suas oportunidades e direitos mudaram drasticamente. Mais tarde, Virgínia Woolf disse numa palestra em Cambridge que levaria um século para que houvesse igualdade entre homens e mulheres. O ano era 1929.

 

Sem dúvida, as mulheres conquistaram direitos e espaços nesses quase 100 anos. Mas em termos de educação, segurança e oportunidades de trabalho, ainda não atingimos a tão esperada igualdade.

 

E agora, o que vinha caminhando a passos lentos esbarrou no dia que o mundo parou.

 

A pandemia produziu um reset mundial. Pela primeira vez na história, as três grandes instituições sociais — família, educação e trabalho — passaram a acontecer de forma simultânea e no mesmo lugar: dentro de casa.

 

As manchetes recentes chamam atenção: na Fortune, no dia 16/5: “The Fortune 500 Has More Female CEOs Than Ever Before”; no New York Times, no dia 15/5: “Why Are Women-Led Nations Doing Better With Covid-19? A new leadership style offers promise for a new era of global threats.”

 

Mas ao mesmo tempo, na corrente oposta, o The Guardian alerta: “Covid-19 crisis could set women back decades, Concerns 50 years of progress could be put into reverse unless government intervene”. Para The Economist, “Downturns tend to reduce gender inequality. Not under covid-19.”

 

Ou seja, enquanto há notícias históricas e animadoras sobre o êxito de mulheres nos mais altos cargos de liderança, outras apontam um futuro preocupante. Rapidamente se percebeu que a fratura sócio-econômica pode aprofundar ainda mais a diferença entre os gêneros.

 

Profissionais mais qualificadas estão sendo impactadas de forma e em ritmo diferentes das que possuem menos qualificações. Executivas em cargos de liderança, por exemplo, são menos sujeitas a perder seus empregos. No entanto, por estarem mais sobrecarregadas com o acúmulo de papeis (mãe, mulher, executiva) durante a quarentena, podem perder produtividade e, mais adiante, uma promoção. Um exemplo eloquente: o número de artigos científicos publicados por mulheres caiu drasticamente nos últimos três meses, enquanto a dos homens aumentou, reduzindo chances de trabalho ou bolsas de estudo para as mulheres no futuro.

 

Neste exato momento, as mulheres são a maioria do desempregados na Europa e EUA, seja por demissão ou por escolha. Dado que a mulher, em geral, ganha menos que o homem, quando o casal precisa decidir quem ficará com os filhos, a matemática resolve o problema. Para piorar o cenário, os setores nos quais mulheres tradicionalmente empreendem como beleza, varejo, educação, enfermagem, eventos, para citar alguns, foram os mais afetados e os que mais terão dificuldade em se recuperar. Quanto menor o poder econômico da mulher, mais rápido elas estão sendo atingidas.

 

Sem escolas e asilos, como quase sempre são cuidadoras das crianças e dos idosos da família, as mulheres começaram a enfrentar diversos dilemas. Será que as mulheres correm o risco de perder o emprego e os espaços conquistados para se dedicar exclusivamente ao cuidado da família?

 

Angela Merkel, primeira-ministra da Alemanha, já alertou para uma “re-tradicionalização” de papeis, insistindo que o parlamento alemão precisa agir. “Vou intervir com toda minha força para que uma re-tradicionalização não ocorra e que homens e mulheres tenham os mesmos direitos.”

 

É louvável seu esforço, mas difícil esperar que outros governos pelo mundo façam o mesmo, ou façam o que a sociedade poderia ela mesma fazer: cobrar que as empresas reafirmem seu compromisso com a diversidade, a igualdade e a inclusão (apesar de abordar aqui apenas gênero, cabe o mesmo para raça).

 

Se a recuperação for focada exclusivamente em eficiência e lucro de curto prazo, sem um olhar cuidadoso para inclusão, corremos o risco de perder décadas de avanço no campo da igualdade — o que seria péssimo para todos, inclusive para a própria sustentabilidade sócio-econômica no longo prazo.

Precisamos focar no grande aprendizado dessa experiência que virou do avesso a rotina corporativa como a conhecíamos até 2020. A realidade provou que o modelo mais flexível de trabalho, com possibilidade de home-office, funciona bem e pode conduzir uma parcela da sociedade a uma vida mais equilibrada e saudável. Um estudo de Stanford mostrou que reunião por videoconferência permite uma colaboração maior entre os times, trazendo mais igualdade. Nessa linha, tem se notado que as mulheres são menos interrompidas nesse tipo de reunião, incentivando seu maior engajamento.

As líderes de empresas e países tem se destacado de forma excepcional nesta crise, mas precisamos nutrir a próxima geração de líderes. Porque, se não fizermos nada, possivelmente não teremos mulheres no topo em 10 ou 20 anos. Foi difícil demais chegar até aqui: mulheres que se orgulham de suas carreiras ou que se realizam empreendendo — empurrando para frente a civilização — simplesmente não podem parar.

Esperamos que, como previu a autora de Orlando, em 2029 as mulheres celebrem conquistas relevantes num ambiente mais igual e inclusivo. Já passou da hora de termos medo de Virginia Woolf.

Maria Rita Drummond é vice-presidente jurídica da Cosan e conselheira da WILL – Women in Leadership in Latin America.

Fonte da Matéria: Brazil Journal 

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