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Entenda o urbanismo feminista, que luta contra as chamadas cidades fálicas

Entenda o urbanismo feminista, que luta contra as chamadas cidades fálicas


Planejadores adotam olhar das mulheres para solucionar questões como segurança, mobilidade e até banheiros públicos


Clara Balbi

O que a dificuldade de encontrar banheiros públicos decentes em grande parte das metrópoles tem a ver com a causa feminista?

Segundo a geógrafa canadense Leslie Kern, autora de “Feminist City”, ou cidade feminista, tudo. Afinal, ela argumenta no livro, ainda sem previsão de publicação no Brasil, são as mulheres que em geral precisam lidar com bebês com fraldas sujas e filhos pequenos, apertados para fazer xixi, ou que costumam acompanhar idosos e deficientes.

“Precisamos de mais papel higiênico, ganchos para pendurar casacos e bolsas, cabines com portas”, ela descreve, mas “a maioria dos banheiros públicos falha terrivelmente ao reconhecer e atender essas necessidades”.

É claro que o problema pode parecer menor dentro da longa lista de questões que afetam o cotidiano urbano feminino —e que inclui assuntos bem mais urgentes, como a segurança e a mobilidade.

Mas, segundo Kern, ele exemplifica como vários aspectos da vida das mulheres não são levados em conta na hora de arquitetos e urbanistas planejarem a cidade, muitos deles homens. Os mesmos que construíram os arranha-céus, essa versão moderna dos fálicos obeliscos, colunas e torres de vigia que, ela escreve em certo momento do livro, “ejaculam luz no céu nortuno com seus refletores”.

Daí a importância de adotar uma visão feminista sobre o espaço urbano, mapeando como as relações de gênero constroem o nosso entorno.
Kern conta que decidiu escrever o livro por causa do MeToo, série de acusações de estupro e de assédio que tomou Hollywood há três anos. “Percebi que existe um paralelo entre a realidade de constantes assédios sexuais que as mulheres enfrentam no trabalho com os ambientes públicos.”

Já as ideias que ela aborda no livro datam das décadas de 1960 e 1970, quando o feminismo começava a circular mais nas universidades. “Então, as pessoas se questionavam. E se passarmos a discutir sobre a outra metade da humanidade?”, conta.

Kern ressalta, porém, que hoje essas propostas buscam ser exploradas por muitos teóricos, ela inclusive, a partir de um viés mais multidisciplinar.

Isso significa pensar como diferentes camadas das nossas identidades, como raça, classe e orientação sexual, entre outros, influem no nosso comportamento e no modo como somos percebidos.

Do contrário, acrescenta a pesquisadora, “podemos acabar simplesmente reproduzindo as mesmas desigualdades com que já convivemos”.

Ela dá como exemplo a questão da segurança. Fatores como o aumento do contingente de policiais e de câmeras de vigilância, que tendem a deixar uma mulher de classe média que se identifica com o gênero de nascença se sentindo mais protegida, podem representar ameaças para outras mulheres, como aquelas que estão em situação de rua.
No Brasil, embora não configure exatamente um movimento, propostas de uma arquitetura e de um urbanismo feminista dão seus primeiros passos agora, também a partir de um olhar mais abrangente, afirma Paula Santoro, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a FAU.

As questões que essas propostas buscam responder são parecidas com aquelas listadas por Kern no livro. Um caso é o da mobilidade urbana.

Seja nas cidades do hemisfério norte analisadas por Kern ou na capital paulista, segundo Santoro, é mais comum que os homens usem automóveis para ir ao trabalho, realizando viagens longas e pontuais de ida e de volta todo dia.

Já as mulheres dependem muito mais do transporte público e de meios chamados de ativos, como andar a pé. E fazem mais viagens ao longo do dia, além de elas serem mais curtas —para buscar e pegar os filhos, por exemplo, ou para fazer compras antes do jantar.

É claro que esses comportamentos são influenciados por muitas outras variáveis, como classe e quantidade de filhos, observa Santoro.

Mas, de forma genérica, acrescenta a professora da FAU, isso faz com que uma política de aumentar pistas para automóveis favoreça mais os homens, enquanto melhorias nos serviços de transporte coletivo ou nas calçadas beneficia as mulheres. Uma visão feminista da cidade, seja aqui ou lá fora, assim, estaria mais alinhada com a segunda ideia.

Santoro ressalta, porém, que no Brasil é difícil avançar em algumas das discussões sobre o assunto simplesmente por falta de infraestrutura.

Segundo ela, num país em que faltam creches e unidades de saúde, é preciso antes construir esses equipamentos para depois replicar métodos usados lá fora para medir se eles de fato atendem aos interesses das mulheres. “Ainda é uma luta para ter essas coisas. Não estamos num momento de discutir a qualidade delas”, diz.

Essa lacuna, por assim dizer, se replica nas visões das pesquisadoras canadense e brasileira sobre os impactos da pandemia nesse ideal de uma cidade melhor para as mulheres.

Na visão de Santoro, o coronavírus deixou mais evidente as formas de opressão estruturais. Tanto urbanas quanto dentro da casa, diz, em referência ao aumento da violência doméstica registrado nos últimos meses. “O que acho que tem de bom é que estamos mais solidários”, afirma.

Já Kern declara ver este momento como um período de oportunidades. “Há uma brecha para lutar por demandas que pareciam impossíveis de serem acolhidas, como o salário mínimo universal e a suspensão de despejos”, diz, acrescentando que embora essas não sejam exatamente pautas feministas, elas tornam a cidade menos desigual também em termos de gênero.
A própria definição de Kern de uma cidade feminista tem menos a ver com a presença de mulheres do que se poderia esperar, na verdade.

Nas palavras da pesquisadora, essa cidade representa um lugar onde “ocupações relacionadas ao cuidado são valorizadas e bem-pagas, e não invisibilizadas, e transporte, moradia e serviços sociais os ajudam a se manter”.

Vale notar que muitas dessas funções se mostraram essenciais durante os últimos meses, como as de enfermeiros e de professores escolares.

Também professor da FAU, Nabil Bonduki afirma que gênero é um aspecto entre muitos que influenciam na construção de uma cidade.

Ele, que quando foi vereador atuou como relator do Plano Diretor de São Paulo, que determina como será o crescimento da cidade até 2029, argumenta que a dificuldade de concretizar o que prefere chamar de uma “visão feminina” sobre a cidade tem menos a ver com a ausência de mulheres no planejamento urbano e mais com questões de orçamento e de prioridades.

Mesmo assim, segundo ele, uma cidade planejada para mulheres é melhor para todos. “Esse olhar feminino é mais humano, e se preocupa com os mais frágeis, como crianças, idosos e aqueles com dificuldade de locomoção”, afirma.

 

fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/09/entenda-o-urbanismo-feminista-que-luta-contra-as-chamadas-cidades-falicas.shtml

Empreendedorismo Rosa
Andressa Ramos dos Santos
Andressa Ramos dos Santos Seguir

Advogada com MBA em Direito dos Contratos. Especialista em Direito Imobiliário e Processo Civil. Mentora na empresa Empreendedorismo Rosa. Avaliadora técnica da ONU, Prêmio WEPs/Brasil 2019.

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